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Entrevista - Mestre Biá  

Mestre Biá
O comandante da Barca que leva você ao Paraíso

O ilhagrande.com entrevista o Mestre Arrais Lourinaldo Cardoso dos Santos, o "Biá". É ele quem conduz as barcas que fazem a travessia do continente até a Ilha. Sempre de bom humor apesar de sua expressão séria, o Biá conversou com a gente durante a viagem entre Mangaratiba e o Abrão, na cabine de comando da Lancha Itaipu.

ilhagrande.com : Biá, você é filho do Joaquim Cardoso, o "Meu Santo", que foi uma pessoa conhecida e muito querida aqui na Ilha. Foi ele quem colocou esse apelido?
Biá : Não! (risos) Meus irmãos menores não conseguiam pronunciar meu nome, então um deles (não lembro qual) iniciou a me chamar de Biá. É bem mais fácil do que Lourinaldo. (risos)

ilhagrande.com : Onde você nasceu?
Biá : No Aventureiro, lá atrás da Ilha, naquela época era só nossa família que morava lá.

ilhagrande.com : Mas não faz muito tempo assim...
Biá : (rindo ) Faz sim, isso foi na década de 60, eu sou de 61. Nessa época, o Aventureiro não tinha nem canoa a motor, a gente pescava com canoa a remo. Mais tarde, o Antônio Pequeno comprou um motor a gasolina, de um cilindro, e passamos a ter uma canoa motorizada que ajudava a levar os peixes para vender em Angra.

ilhagrande.com : Foi na praia do Aventureiro onde começou seu interesse por barcos?
Biá : Mas é óbvio que foi! Imagina que eu acordava e já estava dentro de uma canoa, ainda criança eu aprendi a remar e pescar. Entrava no "Vargido" de Sul (Várzea da Lagoa de Sul) para pegar tainha no cerco e voltar pra casa com a canoa cheia. Depois eu via os barcos de pesca de Proveta (praia) e sonhava em navegar num deles. Gostava de ver o "mestre" no timão fazendo uma manobra, conduzindo o barco para a atracação no cais.

ilhagrande.com : Você fez curso de marinheiro?
Biá : Eu fui mais tarde, na época do quartel, para a Escola de Oficiais da Marinha Mercante, o CIAGA, na Av. Brasil. Eu era atleta e me preparava lá. Acabei fazendo o curso de Arrais, e mais tarde entrei na CONERJ - a antiga Companhia de Navegação do Rio de Janeiro, como "moço de convés".

ilhagrande.com : O que faz um "moço de convés" ?
Biá : O "moço de convés" auxilia o marinheiro. Ele tem que ficar atento a tudo que acontece na embarcação e zelar pelo passageiro também.

ilhagrande.com : E depois você foi promovido?
Biá : Fui sim, eu passei a marinheiro, que é a pessoa que auxilia o mestre nas atracações e no comando. Mais tarde fui promovido a mestre, e realizei meu sonho de conduzir a principal barca da Ilha.

ilhagrande.com :Quanto tempo levou para realizar este sonho?
Biá : Foram mais de 20 anos. Se contar o número de vezes que já viajei por estas águas, acho que daria uma volta ao mundo.


Marinheiro Nilton, Mestre Biá e Wallace.

ilhagrande.com : É difícil conduzir a barca?
Biá : Olha, não é complicado não, mas precisa de muita atenção e conhecimento do meio. O mar é traiçoeiro, precisa ficar atento as marés, as ondas, ao vento, ao céu e até aos pássaros. Apesar da barca ser bastante segura, eu procuro sempre uma rota que faça balançar menos, para evitar pânico caso enfrentemos uma tempestade durante o percurso. Eu confio na minha embarcação.

ilhagrande.com : Você já viu algum tubarão aqui?
Biá: Tubarão? Nem sei o que é isso (riso). Nestas águas não tem peixe feroz, temos golfinhos e muitos peixes voadores, que são uma alegria quando seguem a barca.

Neste momento, Mestre Biá passa o comando ao seu marinheiro, o Milton, mas sempre ao lado dele continua nosso papo.

ilhagrande.com : Quem é o responsável pelos motores do barco?
Biá : É o "chefe de máquinas" quem cuida dos motores, são dois motores. Ele é auxiliado pelo "marinheiro de máquinas". No total, somos cinco os tripulantes da barca.

ilhagrande.com : Os passageiros costumam dar trabalho?
Biá : Não, o passageiro na maior parte é muito tranqüilo, está interessado numa travessia segura e rápida. Uma vez, um passageiro embarcou brigando com a esposa, fazendo um escândalo, como em briga de marido e mulher a gente não deve se meter, eu deixei o casal resolvendo suas diferenças. Chegou uma hora que a discussão deles ficou mais intensa, o rapaz correu, se atirou no mar, tentando o suicídio. Deu um trabalho enorme para resgatá-lo, porque a manobra foi trabalhosa, o mar estava um pouco agitado, mas conseguimos colocar o sujeito para o interior da barca. Passado o susto, fomos notificados que nosso salvamento havia causado uma lesão no socorrido, um arranhão apenas, e ainda fomos processados.

ilhagrande.com : Mas nem sempre a recompensa pelo seu trabalho é tão dura assim, não é?
Biá : Claro que não, uma vez um rapaz viajou com a gente e pediu para que ficasse aqui na cabine de comando, porque ele tinha pânico de mar e não queria que a namorada soubesse. Ele pediu um salva-vidas e ficou com ele toda a viagem, sentado aqui ao meu lado, bem assustado. Eu conversei com ele e até consegui tirar um sorriso do rapaz. Quando chegamos no Abraão, ele era outra pessoa , estava confiante e tudo. Mas na hora do desembarque pediu o colete de recordação. (risos)

ilhagrande.com : Quando você vem visitar seus irmãos aqui no Abraão, você consegue viajar como passageiro?
Biá : Caramba! Sabe que não!? Eu fico inquieto e logo estou aqui em cima no comando, nem noto, é automático.

ilhagrande.com: Qual o momento em que mais exige atenção da tripulação na viagem?
Biá: É na atracação, quando estamos chegando. É preciso muita concentração. E falando nisso, estamos quase chegando, vou deixando um abraço para os internautas e um convite para navegar aqui com a gente. Obrigado!